Comédia nacional diverte, mas tem estereótipos

O cinema brasileiro vive um ano estranho: ao passo que há grandes filmes, não há um arrasa-quarteirão nacional em 2017. Minha mãe é uma Peça 2 é um lançamento de 2016 e há vários lançamentos que passam despercebidos pelo grande público e não foi por falta de tentativa. Mas em uma coisa a indústria brasileira faz igual à hollywoodiana: não se arrisca e vai onde dá certo.

Se os blockbusters norte-americanos sobrevivem de franquias e continuações, o cinema brasileiro, nos últimos anos, viveu das comédias. O fato de o Brasil investir em comédias é uma ideia ótima, se não fosse o fato de a maioria delas terem a linguagem da televisão, com piadas pontuais e, sendo assim, com o risco de ficarem datadas e com a demanda alta. As comédias não necessariamente primam pela qualidade. Doidas1

E agora, em agosto de 2017, surge um novo exemplar do gênero com a promessa e tentativa de sucesso: Doidas e Santas, que nada mais é do que um pout-pourri de outras comédias recentes, mas que não deve ser ignorado. Doidas e Santas é baseado no livro homônimo de Martha Medeiros e conta a história de Beatriz (papel de Maria Paula) que é uma psicóloga e autora de livros de sucesso que ajuda casais em crise, mas que não consegue lidar com os problemas em sua casa, como a crise em seu próprio casamento, a filha rebelde e a irmã excêntrica. A história da mulher em crise de meia-idade e se redescobrindo, não é novidade nas comédias recentes. Esse assunto foi, inclusive, tema do filme De Pernas Pro Ar, também estrelado por Maria Paula, que tem um ótimo timing para o humor, e carisma de sobra, mas este foi um papel que não exigiu muito dela.

O problema não foi o tema em si, mas a sensação de dejá vu em um filme que não acrescenta nada, mas no qual há sim qualidades, como o Doidas2envolvimento emocional com todos ao redor e empatia que o público pode ter com os personagens, seja com a própria Beatriz, a filha adolescente cheia de hormônios, vontades e dúvidas ou a mãe da protagonista, vivida por uma Nicete Bruno muito inspirada, que tem mais saúde e disposição do que a sua filha e neta.

Até Flávia Alessandra demonstra um bom timing para o humor como a vizinha e melhor amiga da protagonista e que rouba todas as cenas em que estão juntas. O ritmo de Doidas e Santas é bom: são 90 minutos muito bem distribuídos, que divertem o espectador, um ótimo programa a dois que até contém algumas viradas de roteiro do segundo para o terceiro ato, que funcionam e até podem surpreender o público. Mas o problema de Doidas e Santas não é a sensação de “já vi isso antes” ou o risco de Doidas3ficar datado logo.

O problema maior são os estereótipos, típicos da TV brasileira, como um recurso fácil de roteiro e como uma estratégia comportamental perigosa, considerando que a televisão é sim, formadora de opinião: as mulheres são tachadas de acordo com o seu psicológico, então temos a louca, a infeliz ou a perfeita.  A adolescente vive falando em gírias, o marido só pensa em futebol e por aí vai.

A verdade é que este filme não se arrisca, acharam mais fácil tachar as pessoas e não trazer algo diferente. Mas seria hipocrisia reclamar da estrutura igual do roteiro das comédias. Da mesma forma que todos nós, consumimos as grandes franquias e que dificilmente arriscamos o suado dinheiro em algo novo, o público que consome esse gênero também segue a mesma lógica.

O medo é de o cinema ficar refém disso e as ideias novas ficarem apenas nos filmes independentes e de festival ou nas boas séries de TV. O futuro é incerto e depende do sucesso – ou não – dos próximos lançamentos.

Nota-do-crítico-2

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Nerd: Raphael Brito

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