Como Nossos Pais é o filme certo e na hora certa

Há algumas certezas na vida: o frio gela, o calor esquenta e Laís Bodanzky não erra em seus filmes. Sua carreira tem poucos, mas grandes filmes, como Bicho de Sete Cabeças e Chega de Saudade. Escolher o melhor de sua cinebiografia chega a ser uma tarefa ingrata e para “piorar” ela chega com mais um filme que não é exagero nenhum classifica-lo como obra-prima: Como Nossos Pais é o filme certo e na hora certa. Em tempos de debate sobre o lugar da mulher na sociedade, de intolerância e quando a família parece mais distante perante todas as provocações do mundo, este filme aparece como um grande alerta.

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Como Nossos Pais já passou por vários países e festivais, incluindo o de Sundance e com um “currículo” desses, chega forte para dar ao Brasil o tão sonhado Oscar na categoria de Filme Estrangeiro, mas vai além disso: o grande prêmio que Como Nossos Pais realmente precisa é mostrar o filme a todos os brasileiros e promover um debate saudável sobre o que se viu em tela e sobre o mundo atual.
E uma discussão e reflexão saudáveis são tudo o que esse mundo precisa.

Como Nossos Pais conta a história de Rosa (interpretada brilhantemente por Maria Ribeiro), uma mulher de 38 anos e que vive em um momento delicado em sua tumultuada vida: dificuldades no casamento, o trabalho já não é tão atraente, as filhas estão entrando na fase dos hormônios e rebeldia e, para piorar, sua mãe revela que o pai que sempre conheceu não é o biológico.

NossosPais5A relação de Rosa com a sua mãe sempre foi turbulenta e com o seu suposto pai, era amigável, embora os dois sejam, claramente, portadores de gênios diferentes.
Rosa recebe pressão de tudo e todos, seu mundo vive desmoronando e por mais que se esforce, nunca é o suficiente. Há diversos momentos sublimes e de libertação para a nossa protagonista. Mesmo as cenas de nudez envolvendo-a são quase como um grito pela liberdade perante a impotência de seu mundo.

NossosPais2Sua mãe a pressiona, seu marido está insatisfeito, sem contar a sua própria insatisfação e desconfiança (ele é ativista pela natureza na Amazônia e ela desconfia de sua fidelidade), seu trabalho nunca está bom e suas filhas estão na fase das dúvidas e vontades e ela ainda tem que ser (ou parecer) forte.
Maria Ribeiro faz, de longe, o melhor papel de sua carreira: todas as mudanças de sua personagem, suas dúvidas, conflitos e problemas e a vivacidade de sua interpretação são quase o que Fernanda Montenegro fez em Central do Brasil: é uma personagem completa. Se houvesse justiça neste mundo, ela teria uma vaga nas premiações de 2018.

Mas engana-se quem pensa que o filme está centrado apenas nela, todos os coadjuvantes, sem exceção, são um show à parte e alguns estão quase tão bons quanto a protagonista, como Clarice, sua complicada mãe, que sempre parece estar contra a protagonista, mas, conforme conhecemos esta personagem, melhor ela fica. E as conversas entre mãe e filha são simplesmente arrebatadoras.

Jorge Mautner faz seu pai, que até mantém uma relação interessante com sua filha, mas que impacta a todos à sua volta. Paulo Vilhena interpreta seu marido, que vive no dilema de defender sua causa e fica no meio do fogo cruzado com os rumos de seu casamento. E na posição de homem, fica sem saber o que fazer. O roteiro acertou muito na profundidade deste personagem, já que ele pode ser qualquer homem hétero e tradicionalista do mundo atual: não compreende as mudanças, ao passo que a vida o ensinou ao contrário.

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É impossível entrar em Como Nossos Pais e sair da mesma forma. Novamente o filme de Laís Bodanzky gera debates e dúvidas em todos, mas fazendo uma análise imparcial dos problemas da sociedade – sem estereotipar, sem dar uma solução fácil de roteiro de um blockbuster, mostrando a verdade nua e crua e sem mostrar os fatos apenas por cima.

Parece fácil, mas não é: fazer um retrato genuinamente brasileiro ou paulistano, neste caso (a cidade de São Paulo é um personagem forte aqui), mas que fala de valores universais. Ele pode chegar forte ao Oscar, Globo de Ouro e ser apreciado por plateias do mundo inteiro, assim como Cidade de Deus e Central do Brasil já foram. Ou Como Nossos Pais pode parecer tão realista que pode assustar os votantes da Academia. Isso só o tempo dirá, mas não faz mal, a vida é assim mesmo.

Nota-do-crítico-5

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Nerd: Raphael Brito

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