Gosto se Discute tem boas ideias, mas resulta num filme normal

2017 está sendo um ano estranho para o cinema brasileiro: há grandes filmes como Bingo, Como Nossos Pais e O Rastro, mas ainda há um claro investimento nas comédias televisivas, embora já faça um tempo que nenhum tenha se tornado um blockbuster de fato, menos por falta de tentativa, mas por uma série de fatores, como o excesso de filmes de alto orçamento, crise financeira, entre outros.

E a nova empreitada para o cinema nacional é a comédia Gosto se Discute, que tem um bom diretor, uma boa ideia, bom protagonista, mas é a presença de Kéfera Buchmann que pode dar uma publicidade para este filme, mas que fique claro: diferente de É Fada, este não é um filme onde ela é o foco. Ela está aqui, tem muita presença, mas o foco está na história.

Gosto1Gosto se discute conta a história de Augusto, vivido por Cássio Gabus Mendes, um chef de cozinha que já teve um passado de glória em seu restaurante, mas que ficou para trás depois que um ex-funcionário abre um food truck de frente ao seu estabelecimento.
Para tentar virar o jogo, é chamada Cristina, vivida pela Kéfera, especialista em finanças e mercado, para fazer com que o restaurante volte aos seus dias de glória.

As referências à animação Ratatouille são inevitáveis, como o filme se passa quase que inteiramente em um restaurante, o medo do novo e até o nome dos restaurante são semelhantes (Augustu’s e Gusteau’s). Há um grande dilema aqui também: Augusto sofre de uma doença rara e não consegue sentir o paladar de nada. Isso, sendo ele um chefe de cozinha.

Há também várias metáforas sobre economia, sobretudo na personagem da Cristina, que sobreviveu ao machismo do mercado e da economia e tem que se provar todo dia.

Cada componente do elenco se esforça e tem seu momento, como o próprio Cássio, Gabriel Godoy, que interpreta Patrick, o concorrente de Augusto e com pequenas participações de Paulo Miklos, Robson Nunes e a sempre ótima Silvia Lourenço.
Gosto3Mesmo Kéfera claramente evoluiu como atriz. Ela tem uma química com Cássio surpreendentemente boa e a cena de sexo entre os dois promete render vários comentários nas redes sociais.

Com uma grande ideia dessas, Gosto se Discute poderia ter sido um filme definitivo sobre a grandiosa culinária brasileira e que serviria como base ou inspiração para outros filmes do “gênero”. Mas há problemas graves, como a péssima montagem, claramente preguiçosa e feita na correria. Junte isso com o roteiro igualmente preguiçoso: há pouco desenvolvimento dos personagens. Até Cristina é pouco desenvolvida no início, tendo mais importância do segundo para o terceiro ato.

Patrick some misteriosamente da maior parte da trama, Silvia Lourenço e Robson Nunes ficam sujeitos a algumas tentativas de frases de efeito. Gosto2Sem contar que Gosto se Discute está sendo vendido como uma comédia, é uma comédia, mas não deveria ser: os momentos dramáticos são muito mais interessantes e os momentos cômicos são claramente forçados e praticamente todas as piadas são recicladas do que já se viu por aí, seja na TV ou no cinema.

Mas isso não torna Gosto de Discute um filme ruim: dá para ver a dois, com a família (mesmo com uma cena de sexo longa no meio), o cinema nacional merece engatar um blockbuster e a preocupação que fica é se os fãs da Kéfera vão apreciar, considerando que este não é um filme exatamente dela onde ela não é o foco na trama principal.
De repente seu público – e a própria atriz – precisem de novos ares.

Nota-do-crítico-3

Nerd: Raphael Brito

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