O lindo (e tolo) Ghost in the Shell

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Arte. Há muito se discute sobre o que é arte e aqui, não cabe o significado de uma boa ou de uma má arte, mas sim, de seu conceito mais básico e simplista. Arte é a expressão através de manifestação através da estética e da comunicação, com isso, é capaz de explicar praticamente todas as artes, independente de ser visual ou audiovisual. É plenamente possível se haver arte sem conteúdo, beleza pela beleza e não me entenda mal, até ela tem seu valor, mas a carência de algo além a empobrece, a torna esquecível.

O mesmo pode ser dito sobre Ghost in the Shell. Se captado frame por frame e colocado em quadros, com certeza seriam belíssimos, mas quando se trata de uma mídia com a necessidade de uma história, se trata de uma casca com ornamentos perfeitos, sem fantasma que lhe dê sustento.

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Ambientado em um futuro não tão distante, Major Miria Killian (Scarlett Johansson) é uma android que seu cérebro foi implantado em um corpo cibernético e acaba escalada dentro de uma força tarefa específica contra cyberterrorismo. Com o surgimento de um hacker capaz de invadir máquinas à distância assassinando cientistas responsáveis em um projeto específico da Hanka, cabe a Major impedir Kuze. Se aventurar por Ghost in the Shell é ter um design de produção e arte impecável, o universo em que lhe capta o olhar com facilidade, entre a sujeira da baixa cidade e os neons acima dela, seus hologramas e propagandas vastas, numa mistura homogenia de Blade Runner e Akira, é uma maravilhosa utopia que disfarça a distopia que ali habita, dentro de sua casca, mas cada vez que o enredo te chama menos encantador o filme se torna, mais uma sensação de que ele está te tirando daquele universo e te obrigando a se focar no que qualquer coisa que o enredo te explica, mas peca pela falta de capacidade de fazer shots como o clássico olhar de Motoko Kusanagi através da janela, que toma seu tempo para explicar sem uma palavra muito sobre a personagem, além de trabalhar com um shot somente usando silhuetas.

A história da Major, cujo o nome Miria é constantemente esquecido, é previsível e não só isso, o enredo faz questão de pegar na sua mão e te explica até o menor dos conceitos. O filme precisa literalmente tirar alguns segundos pra te explicar a coisa mais básica que o público nos primeiros cinco minutos já viu sendo comentado e mostrado, não só, poucos personagens te convencem, não só pelo enredo que não cede espaço pra nenhum mostrar serviço como os próprios atores, com exceção de Michael Pitt (Kuze), que sofre demais de monólogos fracos e que não mostram de fato, qual seu objetivo até ali, como a protagonista insiste em verbalizar mais de uma vez suas ‘’inseguranças’’, ao invés de fazer isso através de maneiras mais sutis e menos expositiva ou gratuita. Scarlett brilha em sua caracterização, em parte, pelos efeitos de ‘’robotização’’, algo já visto em Westworld, mas Batou (Pilou Asbæk) é ridículo com o cabelo cinza evidentemente pintado e os olhos robóticos não soam naturais e sim, desconsertantes, deixando a cargo do próprio Kuze ter uma caracterização melhor, criando um ar único para vilão. GhostintheShell_Trailer_SteveAokiRemix Conforme o enredo prossegue, mais clichês alguns personagens secundários se tornam e depois de seu plot twist, caímos em mais um formato pronto de histórias cyberpunk que mais famigerados já identificarão de facilidade, mais uma vez, não tendo novidades. Cada meandro do filme é perfeitamente conduzido para qualquer um mais atento e que não fosse hipnotizado pelas cenas de ação que tem algum primor, já teria entendido antes mesmo de ser discutido e se trata justamente dele, o whitewashing.

Whitewashing é o ato da indústria cinematográfica de substituir um personagem de uma etnia diferente por um ator americano ou meramente branco, o que incomodou bastante a internet desde que Scarlett Johansson foi escalada para a personagem. Em si, tirou uma oportunidade de uma personagem asiática ter seu papel de destaque e não fique claro que não há falta de atrizes de ascendência nipônica no mercado americano, mas a escolha de Scarlett, é obvia, afinal, ela já foi a atriz com maior rendimento em 2016, um chamariz perfeito. Mas já ouviu dizer de que um erro fica pior quando você tenta explicar ele? Pois é. Os roteiristas tiveram o serviço de colocar o motivo e pra surpresa de ninguém, principalmente minha, de que poderia ter sido bem explorada, mas não foi. Nada nesse filme aparenta ter um comprometimento de dar profundidade a qualquer coisa.

Profundidade. Essa é a palavra que usam com frequência para descrever a obra Ghost in the Shell, obra de Masamune Shirow, mas qualquer incauto que espera que o filme trouxesse isso terá uma decepção profunda e qualquer provável interessado, vai acabar encontrando uma surpresinha no filme de 1995, em sua calma de desenhar aquele mundo e cada personagem, sua falta de necessidade de ter algo explodindo na sua cara a cada 20 minutos para manter sua atenção, ou seja, o jeito oriental de se contar uma história. x720-98p Visto como uma obra fechada, Ghost in the Shell (2017) funciona em seu próprio universo, não há necessidade para um conhecimento prévio para acompanhar, mas como uma adaptação, sua tentativa foi frustrada. Rupert Sanders demonstrou muita maestria dado seu currículo breve, com somente dois filmes até o lançamento deste, mas os roteiristas não, com um elenco de ação fraco, sendo apenas a cena com o ator e diretor japonês Takeshi Kitano se tornando memorável, uma das poucas no final das contas.  No final, quem poderia ser introduzido a um universo extraordinário ficará estagnado em um filme meia boca e subsequentemente, se afastará de uma obra que eu mesmo estou devendo para com ela assistir do começo ao fim, agora com a maturidade necessária.

Um público pipoca, interessado em uma distração tem um prato cheio e a falta de necessidade de ter que se concentrar no que está sendo mostrado, mas alguém que esperava algo um pouco mais, vai encontrar em seu colo um filme medíocre, na forma mais literal da sua palavra, mediano, covarde de fazer as perguntas de verdade e não dar respostas prontas e rasas. Dispense os monólogos vazios e bobos, seja um filme de ação despretensioso, ou seja, um filme cabeça, mas não fique no meio entre os dois.

Nerd: André Arrais

Pseudo-Cult, apreciador de café, ama quadrinhos como ninguém, rato de biblioteca, gamer casual, não sabendo tirar selfie desde sempre e andando na contra mão dos gosto populares. Finge é cheio de testosterona, mas vive rodeado de gatos. Esse é o meu design.

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