Os danos dos 13 motivos

Atenção: Esse texto não só inclui spoilers da série como também trata de temas como depressão e suicídio.

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Jovens estão morrendo. Em 2014 foram mais de  2.928 casos, um salto de 10% entre 2002 e 2014 ,além  disso, a faixa etária é entre os 15 aos 29 anos. O mundo moderno é tão sufocante que uma saída que deveria ser abominada, uma solução final para problemas passageiros, acaba sendo cada vez mais sedutor e recorrente.

Mas onde estão esses pretensos suicidas? Pode ser qualquer um; um melhor amigo, uma namorada, um colega de sala, aquele conhecido com quem você só trocou dez palavras no máximo e ninguém está conseguindo sequer dizer porque isso está acontecendo nem como impedir. É uma pandemia.

Dada esta introdução, já é possível entender por cima porque 13 Reasons Why fez o sucesso que fez. Não é sobre a história em si, não é nem sequer sobre os personagens, que são quase bidimensionais usados para exemplificar um ponto: Como podem ser responsáveis por tornar a vida de alguém tão difícil a ponto do suicídio ser uma resposta natural?

Mas até que ponto se tem todo esse sangue nas mãos? 13 Reasons Why acendeu uma chama poderosa no discurso sobre depressão na juventude, mas será o fez de modo correto?

Minha resposta? Não. A série é tão extremada  ao ponto de colocar o ato de alguém amassar uma carta onde você desabafa sobre seus problemas, como o Zack que na verdade não tinha de fato amassado, ou seja, alguém mentiu e acho que não é garoto em questão a um stalker e pior, um estuprador, coisas que de fato são perturbadores e tão graves quanto, mas acabam perdidas ali junto com ”pequeno” crime de Zack. Não são problemas iguais, nem sequer são mensuráveis e dignos de serem colocados lado a lado. Um estupro é crime, perseguir alguém é crime, mas alguém cujo único erro, aos olhos da protagonista Hannah Baker é em tese ter ‘’amassado seu bilhete’’, o que não ocorreu,  é cruel e desmedido. Isso é só um exemplo por cima do verdadeiro problema da série.

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Hannah Baker é uma garota com a qual é muito fácil o público alvo se afeiçoar. Garota tímida, recém chegada numa escola nova cuja a única amiga se muda, deixando-a sozinha à mercê de garotos mal intencionados, amigos falsos e mais outras desventuras. Não tem problema você usar esse clichê, por mais covarde que possa acabar sendo, porque é uma forma de chamar quem realmente sofre desse problema pra dentro, mas o problema mora exatamente nesse clichê, que utiliza de seu suicídio para expor seu ‘’algozes’’ para dentro de um círculo de autopunição e pior, arrasta o outro protagonista, Clay Jensen, cuja ‘’inocência’’ é dita pela própria. Por que? Por que Clay, justamente o único cara ‘’decente’’, tem que sofrer pelo peso da responsabilidade de crer que é o culpado pela morte da garota que ele amava?

Qualquer psicólogo diria que Hannah Baker é psicótica, e as 13 fitas não são só um modo de expor isso, como seu modo de punir quem ela acreditava ser os culpados pela sua miséria, incluindo nessa patota, estupradores e stalkers, o psicólogo da escola cujo único crime foi… Não entender o que ela queria dizer. O psicólogo não é um telepata, ele não lê mentes, mas sim interpreta o que ele tem quando ela fornece muito pouco. Não há psicólogo que possa tratar isso – afinal ele precisa que você seja honesto com ele, diga o que aconteceu, e precisa que você diga ‘’Eu fui estuprada, eu vi minha amiga ser estuprada enquanto bêbada, eu não estou bem’’ e não espere que ele vá atrás quando não consegue fazer isso porque isso pode ser, na interpretação dele, invasão de privacidade e não permitir que possa se resguardar. Simples assim.

Mas eu sei o que vão dizer, principalmente os mais aficionados pela personagem da Hannah Baker: ‘’Você não sabe como é ter depressão!’’, ‘’você não sabe o que é tentar suicídio’’! Por mais que sejam falácias, vamos supor que, de fato, é necessário uma experiência prévia para que sequer poder participar de um debate. Eu faço parte do debate, sempre fiz e sempre vou fazer não só porque esse assunto é de saúde pública, mas também pra fazer o último ponto do porquê a série tem boas intenções, mas acaba cometendo um crime grave.

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Eu sofro de depressão desde meus 10 anos de idade e já tenho duas tentativas de suicídio nas costas desde então, só aos 17 que ela de fato me derrubou. Não só isso, sofro de ansiedade e fobia social, sendo necessária medicação. Não sou diferente de diversas e diversos ‘’Hannah Baker’’ por aí, também tenho que acordar cedo e lutar todos os dias pra não voltar a ficar deitado numa cama impossibilitado de fazer até as coisas que mais gosto.

Hannah Baker queria punição, isso é um fato. Ela queria apontar os erros de todos e direta ou indiretamente, condenar suas vidas girando em torno dela, uma garota morta. Ou seja, se você se matar, indiretamente você está punindo seus algozes. Eu mesmo tive esse pensamento quando pensei em me matar pela primeira vez, era a forma mais fácil de resolver dois problemas com uma cajadada só. Esse pensamento não é despido de lógica, todos vão sentir sua perda da forma mais brutal possível, seus colegas e seus ‘’motivos’’ também, afinal, uma vida foi perdida por conta de ‘’brincadeiras’’ ou ‘’zoeira’’, mas isso não exclui um fator: Sua família não tem nada a ver com isso, seus amigos não tem nada a ver com isso. Se matar não é uma punição para aqueles que sua vã justiça acredita ser merecedora, como é um castigo para todos os outros atingidos, pessoas queridas na maioria das vezes e isso não é justo, é o mais puro ato de egoísmo que um ser humano pode ter com outrem.

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13 Reasons Why já é um sucesso e já tem sua segunda temporada confirmada pela Netflix, o assunto em tese ‘’morreu’’ e esse texto já nasceu morto porque não está no timing, mas eu precisava de algum tempo para expor algo tão pessoal, meditar se era o correto e claro, esperar que o público maior tivesse tempo de sobra para ver a série e vir aqui sem tomar alguma surpresa desagradável. A série fez o número de pedidos de ajuda subir, o que é bom e gratificante saber que cultura pop está sendo cada vez mais absorvida, sobretudo, que a conversa sobre depressão seja tema de uma mesa familiar também tem sua parcela de culpa seja discutida de forma ampla, aberta, mas isso não é suficiente para absorver o conteúdo dela.

13 Reasons tem um debate importante, mas o meio é quebrado e ter noção disso é fundamental para que não tenhamos um efeito ‘’copycat’’ (copiador ou cópia). Todavia, não sei se é um tipo de série que eu recomendaria alguém ver, mas isso não está em minhas mãos.

 

Textos importantes para um aprofundamento sobre o assunto, além de opiniões de psicólogos:

http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2017/04/10/internas_viver,698536/psiquiatra-faz-13-alertas-sobre-a-serie-13-reasons-why-da-netflix.shtml

https://www.facebook.com/pablovillaca01/posts/1069416173163608

http://www.huffpostbrasil.com/superela/6-motivos-para-nao-ver-13-reasons-why_a_22036860/

 

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Nerd: André Arrais

Pseudo-Cult, apreciador de café, ama quadrinhos como ninguém, rato de biblioteca, gamer casual, não sabendo tirar selfie desde sempre e andando na contra mão dos gosto populares. Finge é cheio de testosterona, mas vive rodeado de gatos. Esse é o meu design.

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