Penpal: Capítulo 01 – Passos

Olá, meus caros e caras nerds! Sei que o Halloween já passou, mas pra mim nunca é tarde demais para uma boa história assustadora, hehe! Hoje, trago a tradução do primeiro capítulo de Penpal, uma das creepypastas mais famosos já publicados no fórum /NoSleep do Reddit, pelo usuário 1000Vultures em 2011. O sucesso foi tanto que, no ano seguinte, a história completa virou um livro, com o mesmo nome, publicado pelo próprio autor, Dathan Auerbach.

A história é contada do ponto de vista do personagem, e foi postada como se tudo o que o autor contasse, fosse verdade. Pela minha sanidade (e pela do garoto na história, haha), prefiro acreditar que tudo isso foi uma grande invenção, e nada é real. :p Inicialmente, o plano do autor era postar apenas esse primeiro capítulo, como uma única história, mas resolveu dar continuidade depois do grande número de comentários que recebeu, pedindo para que ele contasse mais sobre aquele caso tão bizarro. E não é para menos, garanto que Penpal é uma história pra lá de perturbadora.

Portanto, apague a luz e senta que lá vem história!

Penpal

Nota Introdutória

Penpal, em inglês, é um termo usado para referir-se aos amigos por correspondência, pessoas que trocam cartas e bilhetes escritos a próprio punho com certa regularidade. Literalmente, perdendo seu significado original, o termo seria traduzido como “amigo de caneta”. Hoje em dia, com o rápido avanço da tecnologia e com a troca de mensagens instantâneas e e-mails, é muito raro existir esse tipo de comunicação.

Passos

Peço desculpas, mas esta vai ser uma longa história. Nunca tive que contar essa história com tantos detalhes para explicá-la por completo, mas é tudo verdade e aconteceu quando eu tinha uns 6 anos.

Se você pressionar sua orelha contra o travesseiro em um quarto sem nenhum barulho, você conseguirá escutar as batidas do seu coração. Quando eu era criança, as batidas ritmadas e abafadas soavam como passos pelo carpete e, por ser uma criança, quase todas as noites – bem quando eu já estava caindo no sono –, eu ouviria esses passos que me arrancariam imediatamente do sono, assustado.

Por toda a minha infância vivi com minha mãe em um bairro bem agradável que estava numa fase de transição – pessoas com rendas mais baixas foram se mudando para lá aos poucos, e eu e minha mãe éramos umas dessas pessoas. Vivíamos numa daquelas casas móveis que você vê sendo transportadas em duas partes pelas estradas, mas minha mãe cuidava bem da nossa. Havia muitos bosques nas redondezas da vizinhança onde eu brincava e explorava durante o dia, mas de noite – como a maioria das coisas, para as crianças – eles ficavam com um ar mais sinistro. Isso tinha a ver com o fato de que, dada a natureza da nossa casa, havia um vão bem grande debaixo dela que enchia minha cabeça com monstros imaginários e cenários fatais que consumiam meus pensamentos quando eu era acordado pelos passos que pareciam caminhar sobre o chão instável.

Contei pra minha mãe sobre os passos e ela disse que era só minha imaginação; insisti tanto nisso que certa vez ela até chegou a encher minhas orelhas com água usando um grande conta-gotas para me acalmar, pois eu achava que isso ia ajudar. Claro que não funcionou. Apesar de toda a bizarrice e passos que eu ouvia, a única coisa estranha que já tinha acontecido era que, de vez em quando, eu acordava na beliche de baixo, embora tivesse dormido na de cima. Mas isso não era muito preocupante, já que às vezes eu levantava para fazer xixi ou beber alguma coisa e só me lembrava de voltar a dormir no beliche de baixo (eu sou filho único, então não fazia diferença em qual cama eu dormia). Isso acontecia uma ou duas vezes por semana, mas acordar no beliche de baixo não era muito assustador. Até que, certa noite, eu não acordei no beliche de baixo.

Eu tinha ouvido os passos, mas estava num sono profundo demais para ser acordado por eles e, quando acordei, não foi por causa dos sons dos passos ou algum pesadelo, mas porque eu estava com frio. Muito frio. Quando abri os olhos, vi estrelas. Eu estava no bosque. Sentei-me imediatamente e tentei descobrir o que estava acontecendo. Pensei que eu estava sonhando, mas isso não parecia certo, embora também não fosse certo eu estar nos bosques. Tinha uma boia de piscina murcha na minha frente – uma daquelas em forma de tubarão. Isso só fez tudo parecer ainda mais surreal, mas depois de um tempo percebi que eu não iria acordar, porque eu não estava dormindo. Levantei para me orientar, mas eu não reconhecia aquele bosque. Eu brincava no bosque perto da minha casa o tempo todo, então eu o conhecia bem. Mas se esse não era o mesmo bosque, como eu ia voltar para casa? Dei um passo e senti uma dor aguda no meu pé, que me derrubou de novo no chão. Eu tinha pisado num espinheiro. Com a luz da lua, eu podia ver que eles estavam por toda a parte. Olhei para meu outro pé, mas estava tudo bem, assim como estava tudo bem com o resto de mim, só para constar. Não tinha nenhum outro arranhão pelo meu corpo e eu nem estava muito sujo. Choraminguei por um tempinho e então voltei a ficar de pé.

Eu não sabia pra que lado ir, então só escolhi um dos caminhos. Resisti à tentação de gritar por ajuda, já que eu não tinha certeza se queria ser encontrado por quem ou pelo que poderia estar por lá.

Andei pelo que pareceram horas.

Tentei andar em linha reta, e tentei corrigir meu curso quando tive que fazer desvios no caminho, mas eu era só uma criança e estava com medo. Não ouvia nenhum uivo ou grito, e só uma vez ouvi um barulho que me assustou. Parecia com o choro de um bebê. Pensando agora, talvez fosse só um gato, mas eu entrei em pânico. Corri em várias direções para desviar de grandes moitas e árvores caídas. E eu estava tomando muito cuidado com onde eu pisava, porque meus pés já estavam muito machucados de tanto andar. Prestei muita atenção em onde eu pisava, mas não prestei atenção suficiente para onde esses passos estavam me levando, porque não muito tempo depois de ouvir o choro, vi algo que me encheu com um desespero que eu nunca tinha sentido antes. Era a boia de piscina.

Eu estava a apenas 3 metros de onde eu tinha acordado.

Não era nenhum tipo de mágica ou dobra espacial sobrenatural. Eu estava perdido. Até aquele momento, eu estava mais preocupado em saber como eu iria sair da floresta do que como eu tinha ido parar lá, mas voltar ao ponto de partida fez com que eu finalmente pensasse nisso. Eu não tinha nem mesmo certeza de que aquele era o meu bosque; eu só esperava que fosse. Será que eu tinha andado em círculos ou só tinha virado e voltado pelo mesmo caminho? Como eu iria voltar para casa? Naquela época eu pensava que a estrela do norte era a mais brilhante, então olhei para o céu, encontrei a estrela que mais brilhava e a segui.

Finalmente as coisas começaram a parecer mais familiares e, quando vi “o fosso” (um buraco cheio de terra onde eu e meus amigos fazíamos guerra de lama), eu sabia que tinha conseguido sair. Nessa hora eu já andava muito devagar porque meus pés doíam muito, mas eu estava tão feliz de estar tão perto de casa que comecei a correr. Quando avistei o telhado da minha casa por cima de uma das casas dos vizinhos, deixei escapar um pequeno soluço e corri ainda mais rápido. Eu só queria chegar em casa. Eu já tinha decidido que não ia contar nada sobre o que tinha acontecido, porque não tinha ideia do que dizer. Eu daria um jeito de entrar em casa, me limpar e ir para a cama. Senti um aperto em meu peito quando virei a esquina e consegui ver minha casa.

Todas as luzes estavam acesas.

Eu sabia que minha mãe estava acordada e eu sabia que teria que explicar (ou tentar explicar) por onde tinha estado, mas nem conseguia imaginar por onde começar. Minha corrida foi diminuindo de intensidade até virar uma caminhada. Vi a silhueta dela pelas persianas e, embora eu estivesse preocupado sobre como explicar as coisas para ela, isso não importava mais. Subi os poucos degraus até a varanda, coloquei a mão na maçaneta e girei. Bem na hora que eu ia abrir a porta, dois braços me agarraram e me puxaram para trás. Eu gritei o mais alto que pude:

- MÃE! ME AJUDE! POR FAVOR! MÃE!

O sentimento de chegar tão perto de estar em segurança e então ser fisicamente afastado disso me encheu com um terror que, mesmo depois de todos esses anos, continua sendo indescritível.

A porta foi aberta abruptamente, e um lampejo de esperança atravessou meu coração. Mas não era minha mãe.

Era um homem, e ele era enorme. Eu me debati e chutei as canelas da pessoa que me segurava enquanto também tentava me afastar da pessoa que tinha acabado de sair da minha casa. Eu estava assustado, mas estava furioso:

- ME SOLTA! CADÊ ELA? CADÊ MINHA MÃE? O QUE VOCÊ FEZ COM ELA!?

Minha garganta queimava de tanto gritar e, enquanto eu tomava fôlego, ouvi um som que tinha estado presente por mais tempo do que eu tinha percebido:

- Querido, por favor, se acalme. Eu estou aqui.

Parecia com a voz da minha mãe.

Os braços me soltaram, e quando o homem que se aproximava bloqueou a luz da varanda com sua cabeça, prestei atenção nas roupas dele. Era um policial. Virei-me para ver de quem era a voz atrás de mim e vi que era realmente a minha mãe. Tudo estava bem. Comecei a chorar, e nós três entramos em casa.

- Estou tão feliz por você estar em casa, querido. Achei que eu nunca mais ia te ver de novo. Minha mãe também estava chorando.

- Desculpe, eu não sei o que aconteceu. Eu só queria voltar pra casa. Desculpe.

- Está tudo bem, só não faça isso nunca mais. Não acho que eu ou minhas canelas aguentariam…

Uma pequena risada escapou em meio aos meus soluços e eu sorri um pouco. – Bem, desculpe por chutar você, mas porque você me agarrou daquele jeito?!

- Eu fiquei com medo, pensei que você poderia fugir de novo.

Eu fiquei confuso. – O que você quer dizer com isso?

- Nós encontramos o bilhete que você deixou no seu travesseiro, minha mãe disse, e apontou para o pedaço de papel que o policial empurrava em minha direção sobre a mesa.

Peguei o bilhete e li. Era uma carta de alguém que estava fugindo de casa. Dizia que eu era infeliz e que eu nunca mais queria ver ela ou meus amigos de novo. O policial trocou algumas palavras com minha mãe na varanda enquanto eu continuei a encarar a carta. Eu não me lembrava de ter escrito uma carta. Eu não me lembrava de coisa alguma. Mas, mesmo que eu fosse ao banheiro à noite e não me lembrasse, ou mesmo que eu pudesse ter ido ao bosque por conta própria, mesmo se tudo aquilo pudesse ser verdade, esta era a única certeza que eu tinha naquele momento:

- Não é assim que se escreve meu nome… Eu não escrevi essa carta.

Conto original por Dathan Auerbach

Tradução por Evelyn Trippo

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Nerd: Evelyn Trippo

I just have a lot of feelings, e urgência em expressá-los. Aspirante à escritora e estudante deslumbrada de Letras - Tradução. Pára-raio de nerds, exploradora de prateleiras em sebos e uma orgulhosa crazy pet lady.

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