Penpal: Capítulo 02 – Balões

Atenção: Este é o segundo capítulo da série Penpal. Para ler o primeiro capítulo, “Passos“, clique aqui.

Balões

Há alguns dias postei uma história chamada “Passos” no fórum NoSleep. Recebi várias perguntas que me deixaram curioso sobre certos detalhes da minha infância, então fui conversar com minha mãe. Irritada com minhas perguntas, ela disse:

- Porque é que você não conta pra eles sobre aqueles malditos balões, já que estão tão interessados?

Assim que ela disse isso, lembrei-me de muitas coisas sobre minha infância que eu tinha me esquecido. Esta história vai dar um contexto maior para a anterior, por isso acho que você deve lê-la primeiro. Embora a ordem da leitura não tenha muita importância, ler a outra história antes vai fazer você sentir o que eu senti, já que me lembrei dos acontecimentos de “Passos” primeiro. Se tiver alguma pergunta, sinta-se à vontade para fazê-la, e tentarei responder. Ah, fique avisado: as duas histórias são longas. É que fico com medo de deixar de fora algum detalhe que possa ser importante.

Quando eu tinha cinco anos, fui para uma escola primária que, pelo que entendo, era muito rígida quanto a importância de aprender por meio de atividades. Isso era parte de um novo programa pensado para deixar que as crianças se desenvolvessem no seu próprio ritmo e, para facilitar isso, a escola encorajava os professores a pensar em planos de aula bem criativos. Foi dada a liberdade para que cada professor criasse seus próprios temas, que durariam por todo o ano escolar, e todas as aulas de matemática, leitura e etc. seriam planejadas seguindo o tal tema. Esses temas eram chamados de “Grupos”. Tinha o grupo “Espaço”, o grupo “Mar”, o grupo “Terra” e o grupo no qual eu estava, o “Comunidade”.

No meu país não se aprende muita coisa no jardim de infância, a não ser como amarrar seu tênis e a dividir seus brinquedos, então não guardo muitas memórias desse período. Só me lembro de duas coisas muito claramente: eu era o melhor em escrever meu nome do jeito certo e também me lembro do Projeto Balão, que era a marca registrada do grupo Comunidade, já que era um jeito bem inteligente de mostrar como uma comunidade funcionava, num nível bem básico.

Provavelmente você já ouviu falar dessa atividade. Em uma sexta-feira (lembro-me de ser numa sexta porque eu estava animado com o projeto e também com o fim de semana) no começo do ano, entramos na sala de aula de manhã e vimos que tinha um balão preso com um barbante flutuando em cima de cada uma de nossas carteiras. Em cima de cada carteira também tinha um marcador, uma caneta, um pedaço de papel e um envelope. O projeto consistia em escrever um bilhete no papel, colocar no envelope e prendê-lo no balão, no qual poderíamos desenhar alguma coisa, se quiséssemos. A maioria das crianças brigou pelas cores dos balões, mas eu fui direto escrever meu bilhete, sobre o qual eu tinha pensado muito.

Todos os bilhetes tinham que seguir um padrão, mas podíamos ser criativos dentro dos limites. Meu bilhete era mais ou menos assim:

“Oi! Você achou meu balão! Meu nome é [Nome] e eu vou pra escola ______________. Pode ficar com o balão, mas espero que você me escreva de volta! Eu gosto de assistir Mighty Max, de explorar, de construir fortes, de nadar e dos meus amigos. Do que você gosta? Me responda logo. Aqui vai um dólar pro correio!”

Na nota escrevi “PARA OS SELOS”, bem na frente. Minha mãe disse que escrever isso era desnecessário, mas eu achei genial, e por isso fiz mesmo assim.

A professora tirou uma Polaroid de cada um de nós com nossos balões e nos fez colocar as fotos dentro do envelope, junto com nossa carta. Elas também colocaram junto outra carta, que presumo que explicava a natureza do projeto e a sincera gratidão pela participação de qualquer um que respondesse os bilhetes e mandasse de volta fotos de sua cidade ou bairro. Essa era a ideia geral – construir um senso de comunidade sem ter que sair da escola e fazer contato com outras pessoas de forma segura; parecia uma ideia tão divertida…

Nas duas semanas seguintes, as cartas com as respostas começaram a chegar. A maioria vinha com fotos de diferentes pontos turísticos, e cada vez que uma carta chegava, a professora pendurava a foto em um grande mapa que tínhamos na parede para mostrar de onde a carta tinha vindo e o quão longe o balão tinha viajado. Era uma boa ideia, porque nós realmente ficávamos animados em ir para a escola para ver se alguém tinha recebido nossa carta. Pelo resto do ano, nós tínhamos um dia na semana no qual podíamos escrever de volta para nosso amigo por correspondência, ou para o correspondente de algum colega de classe, caso nossa carta ainda não tivesse chegado. A minha foi uma das últimas a chegar. Quando cheguei na sala de aula, olhei para minha carteira e, mais um vez, não tinha nenhuma carta esperando por mim. Mas quando me sentei, a professora se aproximou e me entregou um envelope. Eu devo ter parecido muito animado, porque quando eu estava prestes a abrir o envelope, ela colocou a mão na minha e disse:

- Por favor, não fique chateado.

Eu não entendi o que ela disse – por que eu ficaria chateado logo agora que minha carta tinha chegado? Primeiro fiquei espantado por ela saber o que tinha no envelope, mas agora entendo que é óbvio que as professoras examinaram o conteúdo das cartas para ter certeza de que não tinha nada obsceno nelas, mas mesmo assim – como eu poderia ficar desapontado? Quando abri o envelope, entendi.

Não tinha carta nenhuma.

A única coisa no envelope era uma Polaroid, mas não consegui entender direito o que tinha na foto. Parecia uma parte de algum deserto, mas estava muito borrada para decifrar alguma coisa; parecia que a pessoa tinha movido a câmera enquanto a foto estava sendo tirada. Não tinha nenhum endereço do remetente, então eu não podia nem responder se quisesse. Eu fiquei arrasado.

O ano escolar continuou, e as cartas pararam de chegar para quase todos os outros alunos. Afinal, não dá pra se corresponder com uma criança do jardim de infância por muito tempo. Todo mundo, incluindo eu, tinha perdido o interesse nas cartas quase que completamente. E aí eu recebi outro envelope.

Minha animação foi renovada, e me senti o máximo por ainda receber uma carta quando a maioria dos outros amigos por correspondência já tinham abandonado aquela amizade. Receber outra carta fazia sentido – não havia nada além de uma foto borrada na primeira, então provavelmente essa era para compensar. Mas, de novo, não tinha carta nenhuma… Só outra foto.

Essa era mais nítida, mas mesmo assim não consegui entendê-la. A foto tinha sido tirada de baixo, mostrando o canto do topo de um edifício, e o resto da imagem estava distorcido pelo reflexo do sol na lente.

Os balões não viajaram para muito longe e todos foram lançados no mesmo dia, por isso o mural ficou meio que atulhado. Por isso, as regras para os alunos que ainda trocavam correspondências mudaram, e agora eles podiam levar suas fotos para casa. O Josh, meu melhor amigo, foi o segundo a levar mais fotos para casa no final do ano – o amigo por correspondência dele era muito cooperativo e mandava fotos de lugares por toda a cidade para ele. Acho que o Josh levou pra casa umas quatro fotos.

Eu levei quase cinquenta.

Todos os envelopes eram abertos pela professora, mas, depois de um tempo, parei até de olhar as fotos. Mesmo assim, eu as guardei em uma das minhas gavetas, onde eu guardava minhas coleções de pedras, cards de baseball e de histórias em quadrinhos (como os cards especiais metalizados da Marvel, para aqueles que ainda se lembram deles) e miniaturas de capacetes de batedores de baseball que eu tinha ganhado em uma maquininha de uma loja depois dos jogos de Tee-Ball, uma mistura de baseball e softball para crianças. Com o fim do ano escolar, voltei minha atenção para outras coisas.

Minha mãe tinha me dado uma maquininha de raspadinhas naquele natal, e o Josh gostou tanto dela que os pais dele deram uma um pouco mais moderna do que a minha de presente de aniversário para ele, que foi lá pelos últimos dias de aula. Naquele verão, nós tivemos a ideia de montar uma barraca de raspadinhas para ganhar dinheiro. Pensamos que iríamos fazer uma fortuna vendendo raspadinhas por um dólar cada. O Josh morava em outro bairro, mas no final decidimos que a minha vizinhança seria melhor para os negócios, porque os jardins no meu bairro eram um pouco maiores e muitos moradores cuidavam muito bem de seus gramados. Vendemos raspadinhas por cinco semanas seguidas, até minha mãe nos dizer que tínhamos que parar com aquilo, e só recentemente entendi o porquê de ela ter feito isso.

Na quinta semana, o Josh e eu contávamos nosso dinheiro. Como nós dois tínhamos máquinas de raspadinha, cada um tinha seu próprio monte de dinheiro, que depois nós juntávamos em um monte só para dividir igualmente. Nós tínhamos conseguido ganhar 16 dólares naquele dia, e quando o Josh me pagou meus cinco dólares, um sentimento de grande surpresa tomou conta de mim.

A nota dizia: “PARA OS SELOS”.

O Josh percebeu meu espanto e perguntou se ele tinha feito a conta errado. Eu contei pra ele sobre a nota e ele disse:

- Isso é muito bacana, cara!

Depois de pensar sobre isso, concordei com ele. A ideia de que a nota tinha chegado até mim de novo depois de ser trocada entre tantas pessoas me deixou boquiaberto. Corri para dentro para contar aquilo para minha mãe, mas fiquei desanimado por ela estar distraída falando ao telefone, então minha história ficou um tanto confusa e ela só respondeu:

- Ah, nossa! Que legal!

Frustrado, corri de novo pro quintal e disse ao Josh que eu tinha algo para mostrar a ele. Quando chegamos ao meu quarto, abri a gaveta, tirei de lá de dentro a pilha de envelopes e mostrei algumas fotos pra ele. Comecei com a primeira foto, e vimos mais umas dez antes do Josh perder o interesse nelas e perguntar se eu queria ir brincar no fosso (um buraco cheio de terra que ficava no fim da minha rua) antes que a mãe dele viesse buscá-lo, e foi pra lá que nós fomos.

Fizemos uma “guerra de terra” por um tempo, mas a brincadeira foi interrompida quando ouvimos barulhos no bosque. Tinha guaxinins e gatos de rua morando por ali, mas aquilo estava fazendo barulho demais, então trocamos nossas suspeitas do que poderia ser aquilo para assustar um ao outro. Meu último palpite foi de que aquilo era uma múmia, mas no final o Josh continuou insistindo que aquilo era um robô por causa dos sons que ouvimos. Antes de irmos embora, ele ficou um tanto sério e me olhou bem nos olhos ao dizer:

- Você escutou, não escutou? Parecia um robô. Você escutou também, não é?

Eu tinha escutado, e já que o barulho realmente parecia mecânico, eu concordei que provavelmente fosse um robô. Só agora eu entendo o que foi que ouvimos.

Quando voltamos, a mãe do Josh estava esperando por ele sentada à mesa da cozinha, junto com minha mãe. O Josh contou pra mãe dele sobre o robô, nossas mães riram e ele foi pra casa. Minha mãe e eu jantamos, e então eu fui pra minha cama.

Não fiquei deitado por muito tempo até sair de mansinho da cama e decidir que, por causa dos acontecimentos daquele dia, eu olharia todos os envelopes de novo, já que agora tudo aquilo parecia muito mais interessante. Peguei o primeiro envelope, coloquei-o no chão e, em cima dele, a Polaroid borrada do deserto. Coloquei o segundo envelope ao lado do primeiro e, em cima dele, a foto com o ângulo estranho do topo do prédio. Fiz isso com cada uma das fotos, até que formassem um mural de 5X10; sempre me ensinaram a ser cuidadoso com as coisas que eu colecionava, mesmo se eu não soubesse se eram ou não valiosas.

Notei que, aos poucos, as fotos tornavam-se mais decifráveis. Tinha uma árvore com um pássaro em cima, uma placa de limite de velocidade, um poste de energia elétrica, um grupo de pessoas entrando em algum prédio. E então vi algo que me deixou tão confuso que, ainda hoje, enquanto escrevo isso, consigo me lembrar com clareza de me sentir tonto enquanto era capaz de pensar repetidamente apenas uma coisa: “Por que eu estou nessa foto?”.

Vi a mim mesmo segurando a mão da minha mãe na foto do grupo de pessoas entrando no prédio, bem no fundo da multidão. Estávamos bem no canto da foto, mas não havia dúvidas de que era mesmo a gente. Conforme meus olhos corriam pelas fotos, fiquei cada vez mais nervoso. Era uma sensação muito estranha – não era medo, era o tipo de coisa que você sente quando está metido em encrenca. Não sei ao certo porque fiquei tão abalado com isso, mas lá estava eu, desnorteado pela sensação de que eu tinha feito algo errado. E esse sentimento só se intensificava conforme eu olhava para o resto das fotos depois daquela que tinha me deixado profundamente abalado.

Eu estava em todas as fotos.

Nenhuma delas foi tirada de perto. Nenhuma delas mostrava só a mim. Mas eu aparecia em cada uma delas – em um dos cantos, no fundo, na parte de baixo da foto. Em algumas delas só aparecia uma parte do meu rosto capturada bem na margem da foto, mas ali estava eu. Eu estava sempre lá.

Eu não sabia o que fazer. Quando somos crianças, nossa cabeça funciona de formas engraçadas. Tinha uma grande parte de mim que estava com medo de estar encrencado só por ainda estar acordado. Já que eu achava que tinha feito algo errado, decidi que aquilo podia esperar até amanhã.

No dia seguinte, minha mãe estava de folga do trabalho e passou a maior parte da manhã fazendo faxina na casa. Eu assisti desenhos, acho, e esperei até que achasse que fosse a hora perfeita para mostrar as fotos. Quando ela saiu para pegar a correspondência, peguei algumas das fotos e as coloquei na mesa em que estava sentado, na minha frente, esperando por ela. Quando voltou, minha mãe já estava abrindo a correspondência e jogando algumas cartas que não a interessavam na lixeira, e então eu disse:

- Mãe, você pode vir até aqui rapidinho? Tenho umas fotos aqui que…

- Espere um pouco, querido. Preciso marcar isso aqui na agenda.

Depois de um ou dois minutos, ela veio até onde eu estava, ficou parada atrás de mim e perguntou o que eu queria. Eu ainda podia ouvi-la mexendo na correspondência, mas eu só olhei para as Polaroids e contei pra ela sobre as fotos. Conforme eu explicava mais e apontava para as imagens, seus frequentes “uhum” e “tá bom” diminuíram, e de repente ela ficou quieta e só fazia um barulhinho com as cartas. O próximo som que ouvi vindo dela foi como se ela estivesse tentado respirar em um quarto onde não havia mais ar. Finalmente a respiração agitada dela foi acalmando e ela simplesmente jogou o restante das cartas na mesa, correndo para a cozinha para pegar o telefone.

- Mãe! Desculpe, eu não sabia sobre isso! Não fique brava comigo!

Com o telefone contra sua orelha, minha mãe andava a passos largos para a frente e para trás, gritando com a pessoa do outro lado da linha. Inquieto, mexi nas cartas que estavam perto das minhas fotos. Tinha algo saindo de dentro do envelope que estava no topo e, sem pensar muito, um tanto nervoso, puxei aquilo até que saísse por completo.

Era outra Polaroid.

Confuso, pensei que talvez uma das minhas fotos tivesse ido parar na pilha de cartas quando minha mãe jogou-as na mesa, mas então a virei e percebi que nunca tinha visto essa foto antes. Para o meu desespero, era outra foto minha, dessa vez muito mais de perto. Eu estava cercado por árvores, sorrindo. Mas notei que eu não estava sozinho na foto. O Josh aparecia nela também. Era uma foto da gente ontem.

Comecei a gritar, chamando por minha mãe, que ainda estava berrando ao telefone. Continuei chamando por ela até que ela finalmente respondeu:

- O que foi?!

E só consegui perguntar:

- Para quem você está ligando?

- Estou falando com a polícia, querido.

- Mas por quê? Me desculpe, eu não quis fazer nada de errado…

Ela respondeu algo que eu nunca tinha entendido até ser forçado a relembrar desses acontecimentos dos primeiros anos da minha vida. Ela agarrou o envelope e a minha foto com Josh girou na mesa e foi parar perto das outras fotos que estavam na minha frente. Ela segurou o envelope na frente do meu rosto, mas eu só conseguia olhar para ela enquanto via toda a cor sumir de seu rosto. Com lágrimas em seus olhos, ela disse que ela teve que ligar para a polícia porque não havia nenhum carimbo postal.

Conto original por Dathan Auerbach

Tradução por Evelyn Trippo

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Nerd: Evelyn Trippo

I just have a lot of feelings, e urgência em expressá-los. Aspirante à escritora e estudante deslumbrada de Letras - Tradução. Pára-raio de nerds, exploradora de prateleiras em sebos e uma orgulhosa crazy pet lady.

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