Penpal: Capítulo 03 – Boxes

Atenção: Este é o terceiro capítulo da série Penpal. Para ler o primeiro capítulo, “Passos“, clique aqui. Para ler o segundo capítulo, “Balões“, clique aqui.

Boxes

Se você ainda não leu “Passos” ou “Balões”, por favor, leia antes de ler o que virá a seguir para que possa entender melhor.

Para aqueles que leram minhas outras histórias e me perguntaram se havia mais e receberam respostas enigmáticas de mim, peço desculpas por ser desonesto. Eu disse várias vezes nos comentários que nada mais tinha acontecido depois de “Passos”, mas isso não é verdade. Os eventos da história a seguir não ficaram escondidos em cantos da minha mente. Sempre me lembrei deles. Só depois de me lembrar de “Balões” e de falar com minha mãe sobre os acontecimentos a seguir foi que percebi o quão ligada essa história estava com todo o resto. Mas nunca foi parte do meu plano original escrever sobre isso. Minha vontade de guardar essa memória só para mim é porque eu não acho que eu tenha tido muito bom senso nela. Também queria o consentimento de outra pessoa para contá-la, para não distorcer o que aconteceu. Eu não esperava que houvesse tanto interesse por minhas outras histórias, então nunca pensei que eu seria pressionado por mais detalhes. Ficaria feliz se pudesse manter isso em segredo pelo resto da minha vida. Não consegui entrar em contato com a outra parte da história, mas me sentiria desonesto em não compartilhar esse relato com aqueles que querem mais informações, agora que falei com minha mãe e outra conexão foi feita. O que segue são lembranças da forma mais precisa que eu conseguir lembrar. Peço desculpas pela longa história.

Passei o verão antes do meu primeiro ano na escola primária aprendendo a subir em árvores. Tinha um pinheiro em particular bem ao lado da minha casa que parecia quase que feito especialmente pra mim. Ele tinha galhos que eram baixos o bastante para que eu pudesse me agarrar neles com facilidade sem precisar tomar impulso e, nos primeiros dias depois de aprender como subir, eu só ficava sentado no galho mais baixo, balançando meus pés. A árvore ficava do outro lado da nossa cerca e podíamos vê-la com facilidade da janela da cozinha, que ficava bem em cima da pia. Em pouco tempo minha mãe e eu criamos uma rotina na qual eu iria brincar na árvore enquanto ela lavava a louça, assim ela poderia ficar de olho em mim enquanto fazia outras coisas.

Conforme o verão passava, minhas habilidades melhoravam, e em pouco tempo eu até que conseguia subir bem alto. À medida que a árvore ia ficando mais alta, seus galhos não só ficavam mais finos, mas também mais espaçados, por isso chegava em um ponto no qual eu não conseguia subir mais alto, e aí a brincadeira teve que mudar. Comecei a me concentrar na velocidade, e no fim eu conseguia chegar no galho mais alto em 25 segundos.

Fiquei muito confiante, até que certa tarde tentei passar de um galho para outro sem ter firmado bem meu pé no próximo galho. Caí de uns 6 metros de altura e quebrei meu braço em dois lugares. Foi bem feio. Minha mãe correu até mim gritando e me lembro que a voz dela soava como se ela estivesse debaixo d’água – eu não me lembro do que ela disse, mas lembro de ficar surpreso com a brancura do meu osso.

Eu iria começar o jardim de infância com o braço engessado, e nem tinha nenhum amigo para assiná-lo. Minha mãe deve ter se sentido horrível, porque no dia antes das aulas começarem, ela trouxe um gatinho pra casa. Ele era só um filhotinho e era listrado de laranja e branco. Assim que ela o colocou no chão, ele entrou numa caixa vazia de latinhas de refrigerante que estava largada no chão. Eu o chamei de ¹Boxes.

Boxes só saia de casa quando escapava. Minha mãe quis que suas garras fossem removidas para que não destruísse os móveis e por isso fazíamos o possível para mantê-lo dentro de casa. Ele saia de casa de vez em quando e nós o encontrávamos no quintal perseguindo algum inseto ou lagarto, embora raramente os pegasse porque não tinha as unhas da frente. Ele era bastante evasivo, mas sempre o pegávamos e o carregávamos de volta para dentro. Ele se esforçava para olhar por cima do meu ombro – eu disse para minha mãe que era porque ele estava planejando sua estratégia para a próxima vez. Quando voltava para dentro de casa, dávamos um pouco de atum para ele e assim acabou aprendendo o que o som do abridor de latas sinalizava. Ele vinha correndo toda vez que o ouvia.

Isso se tornou útil mais tarde porque, pouco antes de nos mudarmos dali, Boxes saía com mais frequência e corria para o vão embaixo da casa, para onde nenhum de nós queria segui-lo porque era estreito e provavelmente cheio de insetos e roedores. Engenhosamente, minha mãe pensou em enganchar o abridor de latas a um cabo de extensão e acioná-lo do lado de fora do buraco em que Boxes entrara. Um tempo depois ele aparecia miando alto, empolgado com o som e então horrorizado ao perceber que havíamos pregado uma peça tão cruel nele – um abridor de latas sem atum não fazia nenhum sentido para Boxes.

A última vez em que ele escapou para baixo da casa foi no nosso último dia nela. Minha mãe havia colocada a casa à venda e começamos a empacotar nossas coisas. Não tínhamos muita coisa e adiamos isso por um tempo, embora eu já tivesse empacotado todas as minhas roupas, conforme minha mãe havia me mandado fazer. Ela percebia que eu estava muito triste em me mudar e queria que a transição fosse tranquila para mim, e acho que ela pensava que ter minhas roupas em uma caixa reforçaria a ideia de que estávamos nos mudando, mas também que as coisas não seriam muito diferentes. Quando Boxes saiu de casa enquanto estávamos carregando algumas coisas para a van de mudanças, minha mãe soltou um palavrão porque já havia guardado o abridor de latas e não sabia onde ele estava. Fingi ir procurar o abridor, assim não teria que ir para baixo da casa, e minha mãe (talvez totalmente ciente do meu pequeno plano) moveu uma das entradas e engatinhou para dentro. Ela saiu com Boxes rapidamente e pareceu bastante alarmada, o que me fez sentir ainda melhor de não ter feito aquilo. Minha mãe fez algumas ligações enquanto eu empacotava um pouco mais, então foi até o meu quarto e me disse que tinha falado com o corretor e íamos começar a nos mudar para a outra casa naquele dia. Ela falou aquilo como se fosse uma ótima notícia, mas achei que tínhamos mais tempo naquela casa – em princípio, ela disse que não iríamos nos mudar até o final daquela semana, mas ainda era terça-feira. Além disso, ainda não tínhamos terminado de empacotar tudo, mas minha mãe disse que às vezes era mais fácil substituir as coisas do que empacotá-las e transportá-las por toda a cidade. Nem mesmo consegui pegar o resto das minhas roupas que já estavam nas caixas. Perguntei se poderia ligar para Josh para me despedir, mas ela disse que poderíamos ligar para ele da nossa nova casa. Partimos na van de mudanças.

Consegui manter contato com Josh por anos, o que é surpreendente, pois não estudávamos mais na mesma escola. Nossos pais não eram amigos próximos, mas sabiam que nós éramos, então consentiram à nossa vontade de nos vermos e levavam um na casa do outro para que dormíssemos lá – às vezes todo final de semana. Certo ano, nossos pais até juntaram dinheiro para comprar bons walkie-talkies de presente de Natal para nós, os quais o anúncio dizia que funcionavam a uma distância maior que a das nossas casas. Eles também compraram baterias que durariam por dias caso os walkie-talkies estivessem ligados, mas não fossem usados. De vez em quando eles funcionavam bem o suficiente para que nos falássemos quando estávamos cada um de um lado da cidade, mas quando nos encontrávamos, os usávamos por toda a casa, imitando as conversas de rádio que havíamos aprendido em filmes, e funcionavam bem para aquilo. Graças aos nossos pais, ainda éramos amigos quando tínhamos 10 anos.

Em um final de semana, eu estava na casa de Josh e minha mãe ligou para desejar boa noite. Ela ainda era muito vigilante, mesmo quando não podia ficar de olho em mim, mas eu havia me acostumado tanto com aquilo que nem mesmo percebia, embora Josh percebesse. Ela soava chateada.

Boxes tinha sumido.

Deveria ser sábado à noite, porque eu havia passado a noite anterior na casa do Josh e iria voltar para casa no dia seguinte porque tínhamos aula na segunda. Boxes sumira desde sexta à tarde – percebi que ela não o tinha visto desde que voltara para casa depois de me deixar na casa do Josh. Ela deve ter decidido me dizer que ele tinha sumido porque, se ele não voltasse para casa antes de mim, eu ficaria arrasado, não só pela sua ausência, mas por ela ter escondido isso de mim. Ela me disse para não me preocupar.

- Ele vai voltar. Ele sempre volta!

Mas Boxes não voltou.

Voltei para a casa do Josh três finais de semana depois. Eu ainda estava chateado por causa do Boxes, mas minha mãe me disse que muitas vezes animais de estimação somem de casa por semanas ou até mesmo meses, para depois voltarem por conta própria. Ela disse que eles sempre sabiam onde eram suas casas e sempre tentariam voltar. Eu estava explicando isso para Josh, quando me veio um pensamento tão repentino que interrompi minha própria frase para falar em voz alta:

- E se Boxes pensou na casa errada?

Josh ficou confuso.

- O quê? Ele mora com você. Ele sabe onde é a casa dele.

- Mas ele cresceu em outro lugar, Josh. Ele foi criado na minha antiga casa a alguns bairros daqui. Talvez ele ainda ache que aquele lugar é a casa dele, como eu acho.

- Ah, entendi. Bem, isso seria legal! Vamos contar isso ao meu pai amanhã e ele nos leva até lá para darmos uma olhada!

- Não, ele não vai, cara. Minha mãe falou que nunca poderíamos voltar lá porque os novos donos não queriam ser incomodados. Ela disse que falou isso para seus pais.

Josh insistiu.

- Tudo bem, então vamos sair explorando amanhã e ir até a sua antiga casa…

- Não! Se formos vistos, seu pai vai descobrir e então minha mãe também! Temos que ir lá nós mesmos… Temos que ir lá hoje à noite…

Não demorou muito para convencer Josh a fazer aquilo, porque normalmente era ele quem tinha essas ideias. Mas nunca tínhamos fugido da casa dele antes. Na verdade, isso acabou sendo incrivelmente fácil. A janela do quarto dele abria para o quintal e havia uma cerca de madeira com um portão que não estava trancado. Ao passarmos aqueles dois pequenos obstáculos, desaparecemos na noite, com lanternas e walkie-talkies em mãos.

Havia duas maneiras de ir da casa do Josh até a minha antiga casa. Poderíamos andar pela rua e fazer todas as curvas ou ir por dentro da floresta, o que levaria metade do tempo. Demoraríamos duas horas para andar até lá pela rua, mas sugeri que pegássemos aquele caminho mesmo assim. Disse que era porque não queria me perder. Josh negou e disse que, se fôssemos vistos, poderiam reconhecê-lo e contar ao seu pai. Ele ameaçou ir para casa se não pegássemos o atalho, e eu concordei porque não queria ir sozinho.

Josh não sabia sobre a última vez que eu havia andado naqueles bosques à noite.

O bosque era bem menos assustador com um amigo e uma lanterna, e estávamos fazendo aquele caminho em um tempo bom. Eu não tinha muita certeza de onde estávamos, mas Josh parecia confiante o suficiente e aquilo me animou. Passamos por uma área densa de árvores emaranhadas quando a tira do meu walkie-talkie prendeu-se a um galho. Josh estava com a lanterna, então estava me esforçando para desenroscar a tira do walkie-talkie quando o ouvi dizer:

- Ei, cara, quer nadar?

Olhei para onde ele apontava a lanterna, embora tenha fechado meus olhos ao fazer aquilo, porque soube onde estávamos. Ele estava apontando para a boia de piscina. Era onde eu havia acordado naquele bosque anos atrás. Senti um nó na garganta e algumas lágrimas nos meus olhos enquanto continuava a tentar soltar o walkie-talkie. Frustrado, dei um puxão forte o suficiente para desenroscá-lo, me virei e andei até Josh, que estava parcialmente deitado na boia, fingindo estar se bronzeando. Conforme andei em sua direção, tropecei e quase caí em um buraco razoavelmente grande que estava no meio de uma pequena clareira, mas me equilibrei e parei próximo à borda. Era fundo. Estava surpreso pelo tamanho do buraco, mas ainda mais surpreso pelo fato de não me lembrar dele. Percebi que ele não deveria estar lá naquela noite porque era o mesmo lugar onde eu havia acordado. Deixei aquilo de lado e me virei para Josh.

- Chega de gracinha, cara! Você viu que eu estava preso ali e mesmo assim estava deitado aqui brincando com essa boia! – enfatizei a frase com um chute em uma parte exposta da boia. Ela fez um guincho.

O sorriso de Josh sumiu. Ele pareceu assustado e estava esforçando-se para ficar em pé, mas não conseguia levantar rápido devido ao jeito estranho que estava deitado. Toda vez que ele caia de volta na boia, o guincho intensificava-se. Eu queria ajudar Josh, mas não conseguia me aproximar mais, minhas pernas não cooperavam. Eu odiava aquele bosque. Peguei a lanterna que ele havia jogado enquanto se debatia e iluminei a boia sem saber o que esperar. Finalmente, Josh levantou-se e correu para perto de mim para olhar onde eu estava iluminando. De repente, lá estava. Um rato. Comecei a rir nervosamente e nós dois vimos o rato correr para o bosque, levando os guinchos com ele. Josh deu um leve soco no meu braço, o sorriso levemente voltando ao seu rosto, e continuamos andando.

Apertamos o passo, saímos dos bosques mais rápido do que imaginamos e nos encontramos de volta ao meu antigo bairro. Da última vez que fiz a curva mais a frente, pude ver minha casa totalmente iluminada, e todas as memórias do que havia acontecido vieram à tona. Senti o meu coração parar por um segundo enquanto finalmente virávamos a esquina e estávamos quase vendo a casa por completo, lembrando o quanto ela estava iluminada da última vez. Mas dessa vez todas as luzes estavam apagadas. A certa distância, eu podia ver minha velha árvore em que costumava subir e, conforme me lembrava de tudo o que havia acontecido, percebi que não voltaria ali naquela noite se aquela árvore não tivesse crescido e estava meio pasmo com o fato das coisas terem acontecido daquele jeito. Ao nos aproximarmos, pude ver que o gramado parecia horrível, podia até mesmo adivinhar a última vez que ele fora cortado. Uma das persianas estava parcialmente solta e estava balançando para frente e para trás com a brisa, e a casa toda parecia suja. Eu fiquei triste ao ver que minha antiga casa estava tão negligenciada. Por que minha mãe se importaria se nós incomodássemos os novos moradores se eles se importavam tão pouco com o lugar em que viviam? Então me dei conta:

Não havia novos moradores.

A casa estava abandonada, embora parecesse apenas descuidada. Por que minha mãe mentiria para mim sobre haver novos moradores vivendo na nossa antiga casa? Mas pensei que aquilo era algo bom na verdade. Seria mais fácil procurar por Boxes se não tivéssemos que nos preocupar em sermos vistos pela nova família. Isso tornaria tudo mais rápido. Josh interrompeu meus pensamentos conforme passávamos pelo portão e até a casa em si.

- Sua antiga casa é uma merda, cara! – Josh gritou o mais silenciosamente que conseguiu.

- Cala a boca, Josh! Mesmo desse jeito ainda é melhor que a sua casa.

- Ei, cara…

- Tudo bem, tudo bem… Eu acho provável que Boxes esteja embaixo da casa. Um de nós tem que ir lá e olhar, mas o outro deve ficar aqui perto da entrada no caso dele sair correndo.

- Você está falando sério? De jeito nenhum eu vou lá embaixo. É o seu gato, cara. Você vai.

- Olha, eu aposto isso com você, a não ser que você esteja com muito medo… – eu disse, com meu punho fechado sobre a outra mão com a palma aberta.

- Tudo bem, mas nós vamos em “já”, não em três; É “pedra, papel, tesoura, já”, não “um, dois, três”.

- Eu sei como jogar, Josh. É você quem sempre confunde. E é melhor de três.

Eu perdi.

Soltei uma das entradas que minha mãe sempre movia quando tinha que engatinhar lá embaixo para pegar Boxes. Ela só teve que fazer aquilo algumas vezes, já que o truque do abridor de latas normalmente funcionava, mas quando ela tinha que ir lá embaixo ela odiava, especialmente daquela última vez, e conforme eu olhava para dentro da escuridão do vão, conseguia entender perfeitamente o motivo. Antes de nos mudarmos ela disse que na verdade era melhor que Boxes corresse lá para baixo, apesar do quanto era difícil trazê-lo de volta. Era menos perigoso do que ele pular a cerca e correr pela vizinhança. Tudo era verdade, mas eu ainda estava receoso em fazer aquilo. Peguei a lanterna e o walkie-talkie e comecei a engatinhar para dentro. Um cheiro forte me atingiu.

Tinha cheiro de morte.

Liguei meu walkie-talkie.

- Josh, você está aí?

- É o Macho Man, retorne.

- Josh, para com isso. Tem alguma coisa errada aqui embaixo.

- O que você quer dizer?

- Está fedendo. Cheira como alguma coisa morta.

- É o Boxes?

- Eu realmente espero que não.

Coloquei o walkie-talkie de lado e movi a lanterna por toda parte enquanto engatinhava mais adiante. Quando se olhava para dentro do buraco estando do lado de fora, podia-se ver todo o espaço com uma luz certa, mas era preciso estar dentro dele para ver em torno dos blocos de apoio que mantinham a casa em pé. Eu diria que havia cerca de 40% da área que não se podia ver a não ser que você estivesse de fato no vão, mas mesmo dentro dele percebi que só conseguia ver diretamente para onde a lanterna apontava. Me dei conta de que explorar o lugar seria muito mais difícil. Conforme me movia mais para frente, o cheiro ficava mais forte. Meu medo crescia ao pensar que Boxes tivesse ido ali e alguma coisa tivesse acontecido com ele. Liguei a lanterna para ver ao redor, mas não consegui ver muita coisa. Segurei um bloco de apoio para me impulsionar mais para frente e, conforme o fazia, senti algo que fez minha mão recuar.

Meu coração parou e me preparei emocionalmente para o que estava prestes a ver. Engatinhei lentamente, de tal modo que conseguisse prolongar o que sabia que estava chegando, e movi lentamente meus olhos e a lanterna para trás do bloco para ver o que estava do outro lado.

Vacilei com medo. “Meu Deus!”, escapou de minha boca trêmula. Era uma criatura medonha e retorcida, em decomposição. A pele do rosto tinha apodrecido, então os dentes pareciam enormes. E o cheiro era insuportável.

- O que foi? Você está bem? É o Boxes?

Peguei meu walkie-talkie.

- Não, não, não é o Boxes.

- Bem, o que é isso então?

- Não sei.

Iluminei a coisa com a lanterna e olhei novamente para aquilo com menos medo. Dei um riso abafado.

- É um guaxinim!

- Bem, continue procurando. Vou para dentro da casa para ver se ele deu um jeito de entrar lá.

- O quê? Não. Josh, não vá lá. E se Boxes estiver aqui embaixo e fugir?

- Ele não pode. Eu fechei a entrada.

Olhei e percebi que ele estava dizendo a verdade.

- Por que você faria isso?

- Não se preocupe, cara, você vai conseguir abri-la com facilidade. Isso faz mais sentido. Se Boxes corresse para fora e eu o perdesse, ele iria embora. Se ele estiver aí embaixo, então o pegue e venha abrir a entrada, e se ele não estiver, você pode movê-la você mesmo enquanto olho dentro da casa.

Alguns de seus pontos eram bons, e, de qualquer forma, duvidei que ele conseguisse entrar.

- Tudo bem. Mas tenha cuidado e não toque em nada. Ainda tem um monte das minhas roupas velhas em caixas no meu quarto, você pode olhar lá para checar se ele entrou em alguma delas. E não se esqueça de levar seu walkie-talkie.

- Entendido, parceiro.

Percebi que deveria estar um breu lá dentro. A energia elétrica deveria ter sido cortada já que ninguém estava pagando as contas. Com um pouco de sorte ele conseguiria enxergar com ajuda dos postes de energia que poderiam iluminar um pouco lá dentro, caso contrário, não tinha certeza o que ele faria.

Após muito tempo ouvi passos bem em cima da minha cabeça e senti sujeira caindo sobre mim.

- Josh, é você?

- (Som de rádio chiando) Solicitando frequência. Esse é Macho Man retornando para o grande Tango Foxtrot. A águia pousou. Qual a sua localização, princesa Jasmine? Câmbio.

“Cuzão”.

- Macho Man, minha localização é no seu banheiro olhando para seu estoque de revistas. Parece que você tem uma queda por bundas de caras. Qual é o relatório sobre isso? Câmbio.

Consegui ouvi-lo rindo sem o walkie-talkie e comecei a rir também. Ouvi os passos se distanciando um pouco, ele estava indo para o meu quarto.

- Cara, está escuro aqui. Ei, você tem certeza de que tinha caixas com roupas aqui? Não vejo nada.

- Sim, deveria haver algumas caixas em frente ao guarda-roupa.

- Não tem nenhuma caixa aqui, vou dar uma olhada dentro do guarda-roupa e ver se você não as colocou lá antes de ir embora.

Comecei a pensar que talvez minha mãe tivesse voltado lá, pegado as roupas e doado já que eu havia crescido muito para elas, mas me lembrava de ter deixado as caixas lá. Não tive tempo de fechar a última antes de partirmos.

Enquanto eu esperava Josh me dizer o que havia encontrado, movi minha perna que tinha começado a formigar por causa da posição em que eu estava e bati em alguma coisa. Olhei para trás e vi algo realmente estranho. Era um cobertor e havia tigelas ao seu redor. Engatinhei um pouco mais para perto. O cobertor cheirava a mofo e a maioria das tigelas estava vazia, mas uma delas tinha algo que eu reconheci.

Comida de gato.

Era de uma marca diferente da que dávamos para Boxes, mas de repente eu entendi. Minha mãe tinha arrumado aquele lugarzinho para Boxes para encorajá-lo a ir ali ao invés de sair correndo pela vizinhança. Aquilo fez muito sentido e era ainda mais provável que Boxes tivesse voltado para aquele lugar. “Isso é tão legal, mãe”, pensei.

- Encontrei suas roupas.

- Ah, legal. Onde as caixas estavam?

- Como eu disse, não tem caixa nenhuma. Suas roupas estão no guarda-roupa… Elas estão penduradas.

Senti um calafrio. Aquilo era impossível. Eu tinha empacotado todas as minhas roupas. Mesmo que tivéssemos ainda duas semanas para nos mudar quando partimos, me lembrava de colocá-las em caixas e pensar que era estúpido tirar roupas de caixas e depois colocá-las de volta. Eu havia as empacotado, mas alguém tinha as pendurado de volta. Mas por quê?

Josh precisava sair dali.

- Isso não está certo, Josh. Era para elas estarem em caixas. Para de brincar e volte aqui para fora.

- Não estou brincando, cara. Estou olhando para elas. Talvez você só achasse que as tivesse deixado. Haha! Uau! Você realmente gosta de olhar para você mesmo, não é?

- O quê? O que você quer dizer?

- Sua parede, cara. Haha. Sua parede está coberta de Polaroids suas! Tem uma centena delas! Você contratou alguém para…

Silêncio.

Chequei meu walkie-talkie para ver se havia o desligado de algum jeito. Ele estava bem. Eu consegui ouvir passos, mas não tinha certeza para onde Josh estava indo. Esperei para que Josh terminasse a frase, imaginando que seu dedo tivesse escorregado do botão, mas ele não continuou. Pareceu estar andando ao redor da casa agora. Eu estava prestes a chamá-lo pelo rádio quando ele retornou.

- Tem alguém na casa.

Sua voz estava baixa e falhava – podia ouvir que ele estava prestes a chorar. Queria uma resposta, mas a que altura o volume de seu walkie-talkie estava? E se a outra pessoa o ouvisse? Não disse nada, só esperei e ouvi. O que eu ouvi foram passos. Passos pesados e arrastados. Então ouvi um baque alto.

“Meu Deus… Josh”.

Ele havia sido encontrado, tinha certeza disso. Aquela pessoa o havia encontrado e o estava machucando. Comecei a chorar. Ele era meu único amigo, assim como Boxes. Então percebi: e se Josh tivesse dito que eu estava ali embaixo? O que eu poderia fazer? Enquanto me esforçava para me recompor, fiquei grato ao ouvir a voz de Josh pelo walkie-talkie.

- Ele está com alguma coisa, cara. É um saco grande. Ele acabou de jogá-lo no chão. E… Ai, meu Deus, cara… O saco… Acho que acabou de se mexer.

Eu estava paralisado. Queria correr para casa. Queria salvar Josh. Queria buscar ajuda. Queria muitas coisas, mas só fiquei parado ali, imóvel. Enquanto estava incapaz de me mover, meus olhos se focaram no canto da casa que era logo abaixo do meu quarto. Mudei a direção da lanterna. Prendi a respiração ao ver aquilo.

Animais. Dezenas deles. Todos mortos. Deixados em pilas por todo o perímetro do vão. Boxes estaria no meio daqueles corpos? Era para isso que a comida de gato servia?

Ao ver aquilo, saí do meu estado de choque porque sabia que tinha que sair dali e me arrastei em direção à entrada. Eu a empurrei, mas ela não se moveu. Não conseguia movê-la porque estava presa e não conseguia colocar meus dedos em sua volta porque as bordas estavam do lado de fora. Eu estava preso. “Puta que pariu, Josh!”, sussurrei para mim mesmo. Conseguia sentir passos estrondosos sobre mim. A casa estava tremendo. Ouvi Josh gritar, seguido de outro grito que não estava cheio de medo.

Conforme continuava empurrando, senti a entrada se mover, mas sabia que não havia sido eu que fizera aquilo. Conseguia ouvir passos sobre mim e na minha frente, além de gritos e berros que quebravam os breves momentos de silêncio entre os passos. Recuei e segurei meu walkie-talkie pronto para tentar me defender, e a tábua que obstruía a entrada foi jogada para o lado e um braço apareceu procurando por mim.

- Vamos, cara! Agora!

Era Josh. Graças a Deus.

Me arrastei para fora, segurando a lanterna e o walkie-talkie. Quando chegamos até a cerca, ambos pulamos, mas o walkie-talkie de Josh caiu, ele tentou pegá-lo e eu disse para que ele esquecesse aquilo. Tínhamos que ir. Atrás de nós, pude ouvir berros, mas sem palavras, somente sons. E nós, talvez de forma estúpida, corremos para o bosque para chegarmos até a casa de Josh mais rápido e para que fosse um pouco mais difícil de nos seguir. Por todo o caminho pelos bosques, Josh continuava gritando:

- Minha foto! Ele tirou minha foto!

Mas eu sabia que o homem tinha a foto de Josh – de todos aqueles anos atrás no fosso. Imaginei que Josh ainda pensasse que aqueles sons mecânicos eram de um robô.

Voltamos para a casa de Josh e para o seu quarto antes que seus pais acordassem. Perguntei a ele sobre o grande saco e se aquilo realmente se movia e ele disse que não conseguiu ter certeza. Ele continuava a pedir desculpas por ter deixado o walkie-talkie cair na casa, mas aquilo com certeza não era lá grande coisa. Não fomos dormir e ficamos sentados, espiando pela janela, esperando por ele. Fui para casa mais tarde naquele dia, pois já era cerca de 3:00 da manhã.

Contei para minha mãe o resumo dessa história há alguns dias. Ela teve um colapso nervoso e ficou furiosa pelo perigo em que me coloquei. Perguntei a ela o porquê de ter inventado tudo aquilo sobre incomodar os novos donos para me impedir de ir até lá – por que ela achava que a casa era tão perigosa? Ela ficou furiosa e histérica, mas respondeu a minha pergunta. Ela pegou minha mão e a apertou com uma força que eu jamais imaginara e fixou seus olhos nos meus, sussurrando como se tivesse medo de que alguém mais a ouvisse:

- Porque eu nunca coloquei porra nenhuma de cobertor ou tigela embaixo da casa para Boxes. Você não foi o único a encontrá-los…

Me senti atordoado. Havia entendido tanta coisa. Entendido o porquê de ela ter se sentido tão desconfortável depois de levado Boxes para fora do vão embaixo da casa no nosso último dia lá. Ela havia encontrado mais do que aranhas ou um ninho de ratos naquele dia. Havia entendido o porquê de termos nos mudado quase duas semanas mais cedo. Havia entendido o porquê de ela ter tentado me impedir de voltar lá.

Ela sabia. Sabia que ele tinha feito sua casa sobre a nossa e escondeu isso de mim. Fui embora sem dizer mais nada e não terminei de contar a história para ela, mas quero terminar aqui, para você.

Voltei para casa naquele dia, joguei minhas coisas no chão e elas se espalharam por todo lado. Não me importei, só queria dormir. Acordei por volta das 21h com os miados de Boxes. Meu coração saltou. Ele finalmente tinha voltado para casa. Me senti um pouco mal pelo fato de que se eu tivesse esperado por mais um dia, nenhum dos eventos da noite anterior teriam acontecido e eu teria Boxes do mesmo jeito, mas aquilo não importava, ele estava de volta. Saí da cama e chamei por ele, olhando ao redor para tentar pegar o brilho de luz de seus olhos. Os miados continuaram e eu os segui. Estava vindo debaixo da cama. Ri um pouco ao pensar que eu acabara de engatinhar sob uma casa procurando por ele e o quanto aquilo era muito melhor. Seus miados eram abafados por uma camiseta, então a joguei de lado e sorri, gritando “bem-vindo de volta, Boxes!”.

Seu choro estava vindo do walkie-talkie.

Boxes nunca voltou para casa.

¹Boxes é o plural de box, que significa “caixa” em inglês. Como o gatinho gostava de brincar com caixas, o garoto decidiu dar-lhe esse nome.

Conto original por Dathan Auerbach

Tradução por Evelyn Trippo e Nathalia L. Lossolli

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Nerd: Evelyn Trippo

I just have a lot of feelings, e urgência em expressá-los. Aspirante à escritora e estudante deslumbrada de Letras - Tradução. Pára-raio de nerds, exploradora de prateleiras em sebos e uma orgulhosa crazy pet lady.

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