Polícia Federal: filme promete incendiar o debate político brasileiro

São raros os momentos em que o Brasil de fato respirou bons ares no que diz à política, muitos têm a impressão de que nunca fomos tão intolerantes, mas isso se dá porque hoje em dia todos têm ferramentas para se expressar, ao contrário do passado, mas um dos principais problemas nas discussões sobre política de hoje é que tudo se resume a esquerda x direita e os lados são escolhidos como uma torcida de futebol ou uma guerra civil.

Vimos isso na última eleição presidencial e no processo de impeachment realizado no ano passado, mas esse debate pode vir à tona novamente com a estreia de Polícia Federal – A Lei é Para Todos, que chega aos cinemas brasileiros cercado de expectativas e promete incendiar o debate sobre política no Brasil.

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Uma dúvida que muitos têm e que os realizadores deixaram claro, é quanto à imparcialidade dos fatos apresentados em tela: aqui não há mocinhos nem vilões, mas sim, humanos. São pessoas comuns que querem fazer o certo de um lado, ao passo que são pessoas que se sentiam intocáveis do outro lado.

O filme acompanha os bastidores da Operação Lava Jato desde o seu início até o primeiro semestre de 2016, quando houve de fato o processo do impeachment e o ex-presidente Lula havia sido nomeado na Operação.

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O longa acerta muito em mostrar além do que se viu na TV, além dos depoimentos e das prisões: o foco aqui foi em mostrar como chegaram aos grandes tubarões como Alberto Youssef, Paulo Roberto Costa e Marcelo Odebrecht.

Sim, o roteiro foi imparcial no tratamento do caso, sem apontar essa ou aquela pessoa, esse ou aquele partido, mostrando que o problema foi além da política e o foco nos dois primeiros atos esteve nos agentes da Polícia Federal, que, aliás, tiveram seus nomes e história trocados, como por exemplo a personagem da Flávia Alessandra, que representa todas as mulheres por trás da Operação ou o Júlio César vivido por Bruce Gomlevsky, que teve que lidar com seus problemas pessoais no meio do processo.

LavaJato4O filme é protagonizado e narrado por Ivan, vivido por Antônio Calloni, que está bem, embora em algum ou outro momento o roteiro vá por um caminho de “estou desenhando o filme para o público”, mas menos por culpa do ator e mais dos roteiristas. Quem realmente está apagado é Marcelo Serrado interpretando o juiz Sérgio Moro, que só está lá por conveniência da operação.

Outro ponto alto é a parte técnica: é bom quando vemos o Brasil se arriscando por outros gêneros. Aqui temos um thriller de ação e espionagem que por muitos momentos perdem o fôlego do espectador – a sequência da prisão de Marcelo Odebrecht na casa do réu chega a ser tensa. Não é nenhuma montagem e fotografia de Tropa de Elite e Cidade de Deus, mas não dá para ser ignorada.

Se dependesse só dos dois primeiros atos, este filme com certeza teria uma nota acima de 9 – e não seria nenhuma surpresa uma nota 10 de 10 – por todas as qualidades citadas acima, mas no terceiro ato o filme vira qualquer coisa e por uma série de motivos: todo a imparcialidade é deixada de lado em ser sensacionalista para um lado e jogar com o seu público, praticamente o que vemos aqui é o que se viu na TV ou nada diferente do que o público imaginaria.

Há um momento dedicado ao personagem de Ary Fontoura, que interpreta uma figura da política brasileira que é tão caricata quanto constrangedora. A reação da plateia do cinema foi de risos.

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As imagens do filme foram misturadas com imagens reais e, ao contrário das séries Narcos e The Crown, ficaram mal feitas. Algumas personalidades foram interpretadas por atores e outras foram usadas a imagem real, praticamente sem critério nenhum. A impressão que deu é que acharam o filme técnico demais e que resolveram jogar com seu público nos momentos finais.

E quem for ver o filme nos cinemas, há uma cena pós-créditos e já foi anunciado o novo filme.

É uma pena que este filme tenha uma queda brusca e visível no terceiro ato, perdeu uma chance de ser algo épico e para a história. O diretor Marcelo Antunez veio das comédias e faz um trabalho competente. Pelo seu tema explosivo, as comparações são inevitáveis: Marcelo não é nenhum Fernando Meirelles ou José Padilha, mas se esforçou com o material que tem.

Mas este filme deu sinais de que é uma questão de tempo até ele acertar na próxima. Estaremos esperando.

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Nerd: Raphael Brito

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